O trajeto até o portão da instituição, pareceu-lhe mais extenso. O tio Neri não está mais na guarita. Dá um ‘boa noite’ ao outro guarda noturno. Sorri. Forçado. Afinal ela sempre foi simpática. Caminhar até o terminal é um grande percurso, para que ela lembre-se de todas as suas pautas e consequentemente suas notas.Primeira Pauta. 7,0. Segunda Terceira e Quarta Pauta. 5,0. Quinta Pauta. 3,0. Justo este em que ela estava confiante, esperando um 9,0. Sentiu uma tontura. Dor de cabeça. A culpa era do vento que estapeava seu rosto.
Redação Jornalística I. ”Nos vemos novamente no exame”, estas palavras do seu mestre, a deixou completamente perturbada. Ficara apenas vinte minutos com o Melatti. Tempo suficiente para achar vírgulas, pontos, crases, aspas nos lugares incorretos. Porque é tão difícil escrever? Não entendia. Logo ela que sempre tirava acima de 8,0 em Português. Era adorada pelas suas professoras de Literatura. Justo ela que tinha suas redações expostas no mural escolar. Ensino Fundamental. Ensino Médio. Sempre foi assim. Todos diziam que ela seria uma excelente jornalista.
Mas ela perguntava “Será?”. Não se sentia preparada para a faculdade. Tinha 17 anos. Acabara de terminar o “terceirão”. Mas tinha certeza que era o Jornalismo.
Ah, sem dúvidas. Ele que seria o seu “marido”. A sua grande paixão. Foi amor à primeira entrevista. Aos oito anos. Mas porque ele estava tão diferente?O jornalismo sempre foi tão simpático, descolado, divertido e agora estava arrogante e frio.Isso não importava mais. A garota queria este “casamento”. Mesmo que o noivado dure quatro anos. Determinada. Limpou as lágrimas que ainda percorriam sua face. Já estava se acostumando com elas. Eram quentes. Mas ainda assim, algo a preocupava. Já não era por estar em exame em Língua Portuguesa e Redação Jornalística I. Existia alguma coisa que alertava. O tempo. 23h24. Era isto que marcava no bilhete da passagem. A plataforma do seu ônibus estava vazia. Sentou num banco gelado. As pessoas iam surgindo. Agrupando-se em pequenos grupos. O ônibus chegou. Entrou. Conseguiu um assento. Gelado também. Pegou um livro que estava perdido dentro da imensidade de sua bolsa. Nelson Rodrigues. Peças Dramáticas. Mas não queria ler isto. Ela queria escrever. E então escreveu.
Um comentário:
Aiiiiin! *------*
Que coisa mais linda vc escreveu! Adoreeei!!! Parabéns jornalista Michels! Rs! x)
uma beijas! ;***
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